A 1ª Semana de Enfrentamento à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, realizada pela Escola da Magistratura do Estado de Rondônia (Emeron) em conjunto com o 2º Juizado da Infância e da Juventude (JIJ), foi finalizada na sexta-feira (17) com as duas últimas das quatro oficinas “Infância e adolescência protegidas”, promovidas para alunos de escolas da rede pública. Já nos dias 14 e 15, ocorreu o curso “Metodologias de prevenção de violência sexual para crianças e adolescentes na perspectiva da autoproteção”, destinado a magistrados que atuam na temática, bem como a psicólogos e assistentes sociais de todas as comarcas.
A formação foi ministrada pela pedagoga e mestra em educação sexual Caroline Arcari, que já havia apresentado a palestra de abertura da semana na última segunda-feira (13), sobre os desafios da autoproteção. “O curso traz ferramentas mais específicas que são metodologias de autoproteção, então é pensar em todas as estratégias, materiais, recursos e que é possível fazer ações com crianças e adolescentes de modo que eles construam a noção sobre o que é violência sexual, a diferença entre um toque que simboliza afeto e um que realmente pode ser abusivo, a questão do segredo, para que eles identifiquem como é um processo de aproximação do abusador e que também saibam como pedir ajuda em caso de situação de violência sexual”, explica.
Segundo ela, a prevenção é importante até mesmo para que essas situações não voltem a ocorrer: “Uma criança que sofreu violência sexual pode sofrer outras vezes em outros contextos ou até dentro do próprio ambiente familiar”. A ministrante destaca a importância de ressaltar a perspectiva de quem é essa criança, mesmo que ela já tenha sofrido a violência sexual, no sentido de humanizá-la. Assim, os profissionais podem entender como a criança se sente, por que se cala ou tem dificuldade de relatar a situação de violência sexual, o tempo que ela precisa e qual a demanda de cada faixa etária. “O profissional pode adaptar o seu atendimento, suas perguntas, suas competências exatamente para essa criança que a gente estudou, que é uma criança real, que tem dúvidas e tem um corpo que responde”, complementa.
Assim como a palestra, o curso investiu na desconstrução de mitos, o que Caroline também considera importante para quem trabalha com a criança que sofreu violência sexual, para que entenda o seu contexto e por que ela sofre, carrega culpa ou todos esses processos, sentimentos e emoções muitas vezes fazem com que se cale, fique confusa e tenha dificuldade no relato. Anderson Martins, psicólogo do Núcleo Psicossocial da comarca de Nova Brasilândia d’Oeste, diz que o curso foi interessante justamente porque “muitas vezes a gente trabalha a temática, mas sempre numa vertente mais ‘adultizada’, sem olhar muito a percepção da criança, como se sente, que ela realmente é um sujeito de sentimentos, afetos e que o abuso gera um impacto nela, sem contar as repercussões tanto interpessoais e sociais como até cognitivas das crianças vítimas de abuso”.
Ele pontua que o foco principal dos esclarecimentos foi em relação às metodologias de como trabalhar com as crianças essas temáticas referentes ao abuso no sentido de ela se autoproteger, de aprender a ler os sinais de um possível abusador: “Realmente instrumentalizar as próprias crianças desde o autoconhecimento dela, do corpo, da autoestima, do autoconceito, para chegar depois na questão de como ela pode detectar que alguma coisa não está muito certa”. Após o curso, todos os representantes de comarca terão que cumprir o requisito para a participação, que é fazer uma ação com crianças, seja via conselho tutelar, professores ou pais, envolvendo assim toda a rede de proteção. “Vai ser válido, é pensar em trabalhar de maneira mais sensível, consciente do que é a criança, do universo infantil, como ela pensa e age, a culpabilização que fica quando é vítima em vez de ver o outro como culpado, as questões da dependência emocional e psicológica que elas acabam desenvolvendo”, acredita Anderson.
Por fim, ele alerta que vivemos em uma sociedade que coloca muito a criança como um ser não confiável quando ela dá um relato de uma carícia ou toque, sendo que na verdade uma criança trazer um relato desse é muito difícil: “Quando traz, se você for analisar com um pouquinho mais de profundidade e não a superficialidade do senso comum, você pode se deparar com um cenário muito caótico realmente de abuso seja por uma pessoa, seja por mais parentes, abusos reiterados”. Caroline percebeu os profissionais participantes bastante empenhados em se articular com outras instituições para realmente promover a prevenção e pensar em projetos de autoproteção. “Tive um feedback muito positivo sobre todo esse trabalho que a gente fez de perceber essa criança real e entrar em contato com todas as contradições e ambiguidades em relação aos sentimentos e emoções que ela vive”, finaliza ela.
Oficinas
A oficina “Infância e Adolescência Protegidas” foi desenvolvida em quatro escolas públicas de Porto Velho e Candeias do Jamari, na quinta e sexta-feira. Acompanhadas por servidoras do JIJ e dos Núcleos Psicossociais, as oficinas trabalharam com os alunos os temas: direitos das crianças e adolescentes; autoproteção; identificando sinais de risco; e rede de proteção a crianças e adolescentes.

Para essa ação socioeducativa foram utilizadas ferramentas pedagógicas como a apresentação de um vídeo e a leitura do livro infantil Pipo e Fifi, de autoria de Caroline Arcari, que explica conceitos básicos sobre o corpo, sentimentos, convivência e trocas afetivas. De modo simples, ensina a diferenciar toques de amor de toques abusivos, apontando caminhos para o diálogo e a proteção.
Fonte: Assessoria de Comunicação – Emeron
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